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Comentar assim é fácil

Se tem algo que me incomoda profundamente são os comentaristas de resultado. Em 2006, a explicação geral da perda da Copa do Mundo era porque  a Seleção Brasileira era uma gandaia, era uma bagunça. Porque os figurões mandavam, o comando não tinha pulso e era muita faceirice. Em 2010, a  concentração de Dunga era um quartel general. Ninguém podia fazer nada e o grupo era controlado com mão de ferro. Perdeu também. Aí a explicação  era essa. Muita dureza e retranca em campo.

Aí surgiu Neymar e o futebol brasileiro renasceu. Tudo era festa, alegria, o retorno do futebol moleque. Pra cima  deles! Tudo era lindo. A medalha já é nossa. Perdeu as Olimpíadas e a faceirice, de qualidade, passou a problema. A Seleção era imatura,  deslumbrada. Por isso que perdeu. Ao mesmo tempo, era culpa do meio de campo. Com muitos jogadores de contenção.

Seleção antes do amistoso contra o Japão. Foto: Rafael Ribero/ CBF

Hoje, o Brasil tocando quatro  no Japão com volantes que saem para o jogo e a explicação é essa. Os volantes que jogam. Assim fica fácil. Vê o resultado, aí depois elogia ou critica. Fazer um prognóstico acertado ninguém faz. Olhar a escalação e cantar a pedra antes é mais difícil. Ninguém se arrisca. Brasileiro também tem a mania de achar culpados. Não aceita que a Seleção seja eliminada de uma grande competição. Também existe um adversário do outro lado. E ele pode ser competente. Não é preciso, invariavelmente, crucificar alguém do lado de cá.

No futebol, há três resultados possíveis: a vitória, o empate e a derrota. E eles não podem se repetir para duas equipes em uma mesma partida. Em uma competição, só um avança. Alguém vai ter que ficar de fora, não necessariamente porque tem problemas. Do contrário, teríamos dez campeões por competição.

Se o meio tinha Rômulo e Sandro; ou Paulinho e Ramires; ou o maqueiro e o roupeiro do Brasil, pouco importa. O Brasil tocou quatro hoje no Japão pelo simples motivo de ser Brasil contra Japão. Porque o Brasil é pentacampeão mundial. Tem tradição secular no futebol. O Brasileirinho nasce com uma bola em baixo do braço e cresce chutando-a. O japonês não. Será sempre a obrigação. Contra a Espanha ou a Argentina completa seria a mesma barbada? É só botar um meio de campo que joga, sem um carregador de piano que está ganho? Às vezes é preciso mais análise. Mas também, as vezes, menos.

Twitter: @GrDutra

Escrito por Gabriel Dutra

Jornalista.
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