- Opinião

O choro do ex-capitão, a rebeldia no vestiário e a omissão na direção – Como melhorar em 2013?

Todos nós, colorados, assistimos, ao longo do dia de ontem, uma cena que causou profunda comoção entre os torcedores que se acostumaram a ver o time empilhar taças nos últimos anos: o choro de Fernandão, sincero e honesto, foi recebido com rebeldia pelos torcedores que enxergam no eterno ex-capitão colorado o maior símbolo da recente história vencedora do Inter. Rebeldia essa direcionada, em parte, à direção, e em grande parte aos jogadores. As palavras de Fernandão, mesmo que não fossem diretas, deixavam claro algo: a direção temia por um motim que culminaria com uma derrota no último Gre-Nal do ano.

Eis aí, portanto, o primeiro ponto a ser analisado. Acredito que a contratação de Fernandão foi recheada de erros, seja pela direção ou pelo próprio. A começar pela questão ética de Fernandão aceitar ter seu ex-comandado, Dorival Jr., demitido para que ele mesmo assumisse o comando do time. Além disso, a inexperiência do ex-jogador no cargo era fato óbvio. Antes que se faça qualquer comparação com a experiência de Guardiola no Barcelona, é fundamental comentar que o ex-treinador catalão passou por dois anos de experiência em categorias menores antes de assumir o cargo. Fernandão, não. Fernandão foi jogado diretamente aos leões. Sem experiência alguma, foi convocado para assumir um grupo multi-campeão, repleto de jogadores acomodados e medalhões. Tinha tudo para dar errado. E, conforme o ditado, quando de algo não se espera nada, dali é que não sai nada mesmo.

Feita esta primeira crítica a direção, pela escolha equivocada ao escolher Fernandão como treinador, e também ao próprio ex-capitão, pela falta de ética ao assumir tal compromisso, é hora de chegar ao ponto chave desta análise: pode um time, repleto de jogadores da seleção brasileira, argentina e uruguaia, detentor dos maiores títulos do futebol brasileiro na última década, se ver refém de um motim de jogadores pela ameaça de entregar um jogo justamente para seu maior rival? A resposta é um longo e redundante não. Não importa o erro da direção na escolha do treinador, não importa que o mesmo tenha errado ao aceitar o cargo e errado ainda mais quando escolheu expor os problemas de vestiário após o vexatório empate contra o Sport. Em situação alguma é concebível que um elenco formado por nomes do peso como Forlán, Damião, D’Alessandro, Kleber, Dátolo, Bolatti, Bolívar e cia. seja cogitado na imprensa como armador de um complô para entregar um Gre-Nal. Viesse a acontecer ou não, o fato é que o medo do complô era real, como o próprio Fernandão, indiretamente, mencionou ao comentar a fala de Davi justificando sua demissão. Veja bem: o erro da direção foi de administração; o erro de Fernandão foi a inexperiência; o erro dos jogadores envolvidos em tal esquema vai além: é problema de caráter. Colocar interesses próprios acima dos valores da instituição a qual se está representando constitui falha grave de personalidade. E é isso que, de certo modo, causou tal comoção na tarde de ontem. Fernandão, ao chorar em frente aos microfones, escancarou os problemas de nosso vestiário: os valores estão invertidos.

Feita esta análise, é hora de torcermos para que nossa direção, enfim, tome a decisão certa. A saída de jogadores acomodados, mesmo que já tenham sido multi-campeões, é obrigação! É hora de repetirmos 2008. Após a eliminação na Copa do Brasil para o Sport, livramo-nos, pouco a pouco, de jogadores que haviam sido heróis nas conquistas de 2006 (que, diga-se de passagem, assim como está ocorrendo agora, foram acusados de ter entregue o jogo para o Sport após discutir a premiação pela vitória com a direção). Iarley, Fernandão, Alex, Edinho, aos poucos todos estes jogadores foram negociados, pois já apresentavam problemas de ego no vestiário. A solução foi encontrada com suas saídas e a chegada de sangue novo, como D’Alessandro, Guiñazu, o retorno de Nilmar, Kleber e Nei, para citar alguns. Esta reconstrução do grupo nos levou ao bi da Libertadores. Agora é hora de uma nova reconstrução. Um novo time deve ser montado. Ygor, tão citado por Fernandão, é exemplo disso. Sangue novo, exemplo de dedicação em meio a um vestiário ruído. Giovanni Luigi, que tão hábil se mostrou em tantos problemas enfrentados ao longo do ano, deve voltar um pouco suas atenções ao futebol, sua grande dificuldade (lembram o conturbado vestiário comandando por Gallo em 2007? Era justamente Luigi o responsável pelo futebol na época). É hora de reconstruir um plantel que tenha vontade de vencer. Apostar somente em novos técnicos trará pouco resultado a essa altura. É hora de reformular alguns jogadores. É hora de darmos adeus a quem, claramente, não tem mais vontade de vestir a camisa colorada: Kleber, Bolívar, Bolatti, exemplos de jogadores que não precisamos mais. É hora de entendermos que, mesmo que isso nos custe um ou dois anos de resultados mais modestos, novos jogadores precisam ser testados. Acertamos com Ygor e Muriel. Porque não podemos tentar em novas posições?

Existe, desse modo, somente uma solução para um 2013 menos problemático: o início desse processo de reformulação e a contratação de um treinador capaz de lidar com esse processo e que resgate, ao mesmo tempo, tanto o respeito quanto o orgulho de se vestir a camisa colorada. Qualquer semelhança com o processo conduzido por Dunga na seleção após o escândalo de 2006 não é mera coincidência. Sim, o capitão do Tetra é o nome para 2013. Ele resgatou o orgulho da Seleção Brasileira quando ninguém mais acreditava. Ele demonstrou ter domínio de grupo, conhecimento tático e capacidade de construir um ambiente de trabalho harmonioso, voltado exclusivamente para o objetivo da vitória. Sim. Passada a forte carga emocional que envolveu a despedida de Fernandão, é hora de esquecermos a crise e nos voltarmos, o mais rápido possível, para o futuro. Dunga para 2013 pode significar o início da reformulação que tanto precisamos. Para tanto, precisamos contar com uma direção menos omissa no vestiário e que, por favor, comece a agir com a eficiência que ainda não demonstrou em dois anos. Ainda há tempo para planejar um 2013 melhor. Oremos.

Escrito por Carlos Quadros

Leia outras publicações de Carlos Quadros

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.