- Opinião

Na estreia de Dunga, Inter faz bom primeiro tempo, mostra surpresas positivas e apresenta um velho problema

Gauchão é um torneio engana-bobo, todos já sabem. Se deixar levar pelos resultados nessa competição já se provou um erro fatal mais de uma vez ao longo da história tanto de Inter, quanto de Grêmio. Por isso, é necessário observar além do que o placar do jogo nos mostra: o empate sem gols entre Inter e Novo Hamburgo não traduz o que foi a apresentação da equipe de Dunga. Aliás, esta é a melhor maneira de se referir ao Inter que hoje esteve em campo: o time de Dunga. Combativo do início ao fim, a equipe colorada foi a cara de seu treinador. Cada jogador mostrou indignação e comprometimento com a partida: comparado com o que aconteceu ao longo de 2012, não se pode negar que isso por si só já é uma melhoria. Assim, Damião voltou a brigar pela bola e a dar carrinho no zagueiro adversário; D’Alessandro correu e comandou o time do início ao fim; Forlán correu o quanto agüentou, procurou jogadas o tempo todo e correu para cobrar escanteios enquanto a zaga do NH estava desprevenida; Fred foi volante, armador e ainda apresentou chegada ao ataque. No entanto, nem só de transpiração vive um time de futebol.

Desse modo, mesmo com o empenho dos jogadores, isso não garantiu que todos eles tivessem boa apresentação individual. Forlán foi o mesmo jogador de 2012, errou demais em lances bobos; Dátolo, destaque na pré-temporada, foi o pior em campo; Damião lutou, brigou e até parecia ser o atacante de 2011, com uma única e importantíssima exceção: não acertou o pé, tal qual tanto aconteceu ao longo de 2012. Novo espírito, velhos problemas. Não só Damião, mas o time inteiro teimou em perder gols. O Inter pressionou, foi melhor, apresentou vontade e bom desenho tático, mas faltou o mais básico do futebol: poder de finalização. Dátolo teve oportunidades claras de matar a partida, mas apresentou ineficácia surpreendente. Somado às partidas de 2012, o time principal já apresenta um longo jejum de partidas sem marcar gol. Novo ano, velhos problemas.

As surpresas positivas se dividem em três fatos: o primeiro deles é a distribuição do time em campo. Os jogadores tinham posições claras e definidas, a movimentação era bem feita e todos jogadores se deslocavam e trocavam posições no ataque, buscando sempre a ocupação dos espaços em branco. Isso resultou em excelentes chegadas pelo lado direito: as triangulações entre Gabriel, D’Alessandro e Forlán (por vezes Dátolo) foram excelentes, prova clara de que o time está conseguindo colocar em prática o que foi treinado na pré-temporada. A bola pode não ter entrado, mas o torcedor colorado deve dar o desconto de ser o primeiro jogo do time. Se, com jogadores que ainda estão se conhecendo, o time foi capaz de articular jogadas tão interessantes, imagine o que poderá estar fazendo quando o esquema estiver definitivamente encaixado. Se o problema de (falta) de pontaria no ataque é um antigo problema, o torcedor deve se sentir revigorado por, finalmente, ver o time apresentando alguma jogada trabalhada, o que não acontecia na Era Fernandão, tampouco na Era Dorival.

A segunda surpresa positiva é a boa estreia de Gabriel. Todos sabem que o jogador é uma bomba-relógio, e seus problemas extra-campos podem explodir a qualquer momento. No entanto, enquanto não temos notícias do gênero, devemos aproveitar, o fato de, finalmente, termos um lateral direito de qualidade. Após 3 anos com Nei vestindo a camisa titular, pela primeira vez podemos assistir um lateral direito jogando com a bola e participando, efetivamente, das jogadas de ataque.

Por fim, devemos exaltar a atuação de D’Alessandro. O gringo foi o melhor em campo, alma do time e voz do treinador dentro das quatro linhas. Entortou zagueiros com dribles desconcertantes, chutou bem de fora da área e fez passes precisos. Sua recuperação deve encher os colorados de esperança.

Foi um jogo atípico, no qual o Inter dominou, pressionou, jogou melhor, mas a bola não entrou. Se a pontaria do ataque não funcionou, a parte coletiva agradou. Para um treinador como Dunga, que almeja um trabalho de longo prazo, implantando um projeto e uma filosofia de trabalho, o bom desempenho coletivo é um bom indício de que está no caminho certo. Melhorar o desempenho do ataque se torna seu desafio nesse momento, uma vez que Forlán e Damião continuam a mostrar pouca sintonia jogando juntos. O tempo nos mostrará as soluções a serem buscadas pelo treinador.

Carlos Quadros

PS: não comentarei a estreia de Willians em um jogo no qual o Inter não foi pressionado em momento algum. Deixarei esta análise para o Gre-Nal de domingo.

Escrito por Carlos Quadros

Leia outras publicações de Carlos Quadros

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.