- Opinião

104 anos do Clube do Povo

“Glória do desporto nacional, oh Internacional que eu vivo a exaltar. “

Exalto pelo teu passado, pela força e pela ousadia dos irmãos Poppe, vítimas da exclusão social e da prepotência da sociedade germânica estabelecida em Porto Alegre, no início do século XX, que excluía não somente os imigrantes italianos, mas sim também os negros, os pobres e qualquer um que não se encaixasse no perfil aristocrata germânico desejado em outros clubes da cidade. Exalto a valentia desses fundadores, que não aceitaram as condições que lhe eram impostas e fundaram um clube verdadeiramente internacional. Um clube de todos. O verdadeiro e legítimo clube do povo.

Exalto teus primeiros passos, a força após os primeiros resultados adversos, a dura caminhada que precisaste enfrentar até se estabelecer em uma sociedade que teimava em não te aceitar. Exalto a persistência dos teus primeiros jogadores negros que, como bem lembrou o lendário zagueiro Nena, cansaram de entrar em campo e serem vaiados, sobre gritos racistas que não passavam de uma prática comum em uma sociedade ainda muito primitiva. Menos mal que esses gritos, que ainda surgem nos tempos atuais, sob alguns disfarces nem tão disfarçados assim, não foram o suficiente para barrar esses jogadores, e que na verdade só serviram de combustível para te alçar, nestes teus 104 anos, como um clube campeão do mundo que jamais perdeu suas origens populares.

Exalto teus ídolos. Que outro clube no mundo pode dizer que viu, em um intervalo de 10 anos, o maior ídolo de sua história passar de um gurizote magricelo que, vindo de família operária, fazia viagens vindo de Santa Catarina, junto com seu pai, para doar tijolos para erguer teu estádio, à condição de herói indiscutível de um tricampeonato brasileiro? Salve Bodinho, Dom Elias e também Falcão. Salve Sóbis, D’Alessandro e Fernandão.

Exalto Dom Elias, de cabeça, cumprimentando Raul, na bola que veio de Valdomiro, para criar o mar vermelho no Beira-Rio. Abençoado gol iluminado, que abriu as portas do futebol brasileiro para os times do Rio Grande do Sul.

Exalto teus estádios. Querido e saudoso Eucaliptos, palco de um Rolo que este estado jamais vai esquecer. Suado Gigante da Beira-Rio, cujos tijolos foram erguidos por torcedores que, muitas vezes, abdicaram do pouco que ganhavam para contribuir em tuas construções. Cada espaço de concreto das tuas dependências transpira cumplicidade e paixão. Paixão que não se explica, somente se sente. Ser colorado não é torcer para o Inter. Ser colorado é adotar um estilo de vida.

Exalto, sim, tuas derrotas. Fizeram-me crer que o amor é, de fato, um sentimento inabalável. Cada derrota chorada, cada gol sofrido, nada foi suficiente para abalar esta relação. Somos todos teus seguidores e nada vai nos separar.

Exalto tuas conquistas. Exalto o campeão do mundo que se rendeu, definitivamente, ao teu futebol, nos gols de Sóbis, o menino de Erechim: cara de gaúcho, pinta de gaúcho, roupa de gaúcho. Exalto Fernandão, capitão eterno, cuja história nunca se apagará. Exalto o mundo sendo pintado de vrmelho: teu adversário era temível, mas tu foste gigante. És gigante.

Exalto, hoje, acima de tudo, o operário que acorda cedo para pegar o ônibus e passar o dia no trabalho, usando uma camisa vermelha, provavelmente de alguns bons anos atrás, já coberta pela poeira e maltratada pelo tempo. Exalto o empresário, a quem só é permitido trocar o terno pela camisa vermelha em dia de jogo no Beira-Rio. Exalto, nestes teus 104 anos, o branco, o negro, o brasileiro, o italiano, o argentino, o alemão, o crioulo e o mestiço. Exalto a todos que constroem tua história, pois, quando nos encontramos no estádio, não existe raça, religião ou gênero capaz de nos separar. Quando vestimos vermelho, nos tornamos irmãos com um único sentimento em comum: devoção ao clube ao qual adotamos como filosofia, buscando o verdadeiro sentido de ser um clube do povo, aberto a tudo e a todos. Porque, há 104 anos atrás, optou por responder ao preconceito com a cabeça aberta; à exclusão com a inclusão; aos detratores, resolveu se tornar um verdadeiro Sport Club Internacional. És o clube do povo, e por isso o parabéns, hoje, vai a quem te fornece suporte e apoio ao longo da tua história: a todos.

Parabéns, colorado das glórias, orgulho do Brasil.

Escrito por Carlos Quadros

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