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Curioso alvirrubro

A história do clube do povo do Rio Grande do Sul é uma das mais bonitas do Brasil. De sua fundação oriunda do racismo, até a glória dos grandes títulos suados, tudo parece ter tido poesia. E por trás de histórias tão bonitas como essa, sempre há grandes curiosidades perdidas no tempo a fim de serem redescobertas, e agora, serão.

Preconceito

Impossível falar de Internacional sem falar de preconceito, afinal, o clube nasceu desse ato repugnante. O Inter foi o primeiro clube de Porto Alegre a contar com jogadores negros em sua equipe (Dirceu Alves – 1928). Nos anos do rolo compressor que coincidentemente foram quase os mesmos anos que os da Segunda Guerra Mundial, o clube colorado era chamado de “clube dos negrinhos”. Um depoimento interessante sobre essa época foi dado por Luis Fernando Veríssimo: havia recém chego dos Estados Unidos, lá havia se identificado com os aliados que lutavam contra o Eixo e seu regime genocida e totalitário. Chegando a Porto Alegre, Veríssimo escolheu torcer pelo time vermelho, devido ao time azul não permitir que negros jogassem no clube. Ele disse ter escolhido o Inter por amar a democracia, a compreensão entre as pessoas e os ideais liberais. Mas, o clube não lidou apenas com preconceitos raciais, mas também com os sociais. Foi também, o primeiro clube a profissionalizar o futebol, o que gerava preconceito de clubes elitistas que queriam que o futebol continuasse sendo ‘amador’, ou seja, só jogaria quem tivesse dinheiro suficiente para continuar jogando sem receber remuneração para tal.

Clube do Povo

O Internacional é conhecido como ‘clube do povo’ desde sempre. Ou pelo menos, desde 1909, ano de sua inauguração. O clube tem esse apelido carinhoso, pois sempre esteve de braços abertos a qualquer tipo de pessoa que quisesse fazer parte dele, independente de cor, credo ou posição social. A própria escolha das cores do clube, ligadas ao carnaval, se remete ao povo. O local onde o clube se desenvolveu, o segundo distrito, não era preferência de moradia das elites. Também pelo fato da inserção de negros, vindos da ‘Liga da Canela Preta’. O clube foi também o primeiro time brasileiro de futebol a promover eleições diretas para presidência. O apelido carinhoso, está intimamente ligado com a democracia.

Macacos

A partir do momento em que o Internacional inseriu jogadores negros em sua equipe, o clube e a torcida começaram a receber apelidos pejorativos. Um dos mais famosos é: “Os Macacos”. Ao invés de ofenderem-se, a torcida colorada resolveu responder com bom humor. Começaram a intitularem-se macacos e inseriram o nome em suas músicas, dando uma rasteira sutil no preconceito.

Buzinas

Quem nunca buzinou euforicamente quando seu time fez gol? Agora, quem sabia que era uma invenção colorada? Pois bem, a famosa combinação de buzinas “pá-pá-papapá”, na verdade querem dizer, “co-co-colorado”. A invenção, divulgação e consolidação do ‘rito colorado’ se da a um trabalhador do cais do porto, conhecido como Charuto.

Expressão “Tri”

Quem é gaúcho, com certeza está familiarizado com tal expressão. Ela é usada para expressar demasia e é uma das coisas que nos caracteriza perante os outros estados brasileiros. Mas o que a maioria não sabe é que tal expressão nasceu no Internacional. O cenário era de conquistas, Brasil Tri-Campeão Mundial em 1970, o Internacional Tri-Campeão Gaúcho em 1971 e Tri-Campeão Brasileiro em 1979. Outro fato que contribuiu para inserção do verbete ao dicionário “gauchês” foi a utilização da gíria “jóia”, para qualificar coisas boas. A gíria talvez tenha lembrado uma expressão francesa (francês ainda era ensinado nos colégios), “três joli”, que quer dizer “muito bonito”. Logo se faz uma relação entre três, que quer dizer muito em francês, com o muito.

Essas foram apenas algumas curiosidades sobre o Internacional, cuja história está repleta delas. Algumas se perderam no tempo, outras conseguiram salvar-se e algumas delas, apresentei a vocês. Memórias são vulneráveis, é preciso sempre reafirma-las. E não seria agradável que fatos tão bonitos, como o combate contra o preconceito, fossem esquecidos e enterrados. O passado é feito para refletir, aproveitar as coisas boas e não repetir as erradas.

Escrito por Daniella Vargas

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