- A rivalidade grenal e a torcida mista, Destaque, Grêmio, Internacional, Notícias

Vitória da competitividade com ética

Por Rogério Santo, Fernando Sousa e Thales Barreto

Na parte final da matéria sobre a torcida mista temos o desfecho de todo um trabalho que foi encarado com seriedade desde o começo. Um sonho que se concretiza e traz uma inovação positiva para o futebol brasileiro. Perde a violência nos campos, ganha a educação, a boa convivência, a competitividade saudável e a ética no esporte.

O Grenal da torcida mista superou expectativas. “Foi um exemplo de convivência”, diz Alexandre Limeira, vice-administrativo do Internacional. “Funcionou melhor do que nós tínhamos planejado. O Caminho do Gol teria uma área cercada no Viaduto Dom Pedro I, para ficar só a torcida mista. Não precisou fazer essa separação. As pessoas tiveram uma interação”, conta Limeira. “Circulei pelo Caminho do Gol com a EPTC e fiz fotos. Todas as pessoas estavam imbuídas de um clima de pacifismo”, relata o Promotor Francisco Seabra, da Promotoria do Torcedor do Ministério Público. “Até pessoas que não estavam indo no jogo andavam juntas no Caminho do Gol, para confraternizar e ver a banda da Brigada Militar tocar”, acrescenta Seabra.

Leia Também:
Rivalidade Grenal e Torcida Mista – Parte 1
Rivalidade Grenal e Torcida Mista – Parte 2

O pensamento pessimista e de rivalidade, a resistência das correntes que acreditam não ser possível unir colorados e gremistas caíram por terra. Para Limeira, o Grenal é de todos. As pessoas estavam incomodadas com o domínio de uma minoria que prega rixas e brigas, por isso o projeto da torcida mista ganhou repercussão da comunidade nas redes sociais e na imprensa. E agora a torcida mista passa de um projeto incerto para toda uma nova visão que relaciona futebol com educação e responsabilidade social. Limeira acredita que, mais do que unir torcedores, a torcida mista é uma mensagem educacional.

Este slideshow necessita de JavaScript.

“Nós podemos fazer ações junto às secretarias de educação municipais e estaduais e trazer estudantes em todos os jogos do campeonato gaúcho e brasileiro. Podemos disponibilizar mil ingressos em cada jogo para estudantes e chamar as escolas no microfone”, diz Limeira. Segundo ele, com a experiência da torcida mista, os estudantes podem debater nas escolas questões como tolerância e convivência. “O comportamento vem dos exemplos. E que exemplo estavam recebendo essas crianças sobre os colorados versos gremistas? Sobre o estádio. Elas estão recebendo uma bagagem de intolerância, revanchismo e brigas, e isso não é o certo”, aponta Limeira.

Para o dirigente do Internacional é preciso mostrar que nós temos uma rivalidade sadia e forte. O colorado tem que querer ganhar do gremista e o gremista tem de querer ganhar do colorado, mas isso não significa que não possam andar juntos, que sejam inimigos. “É preciso trazer isso desde a base, desde a escola. Essas crianças vão conviver entre colorados e gremistas a vida toda, mas não significa que não possam criar laços de amizade”, diz Limeira, que cita as ações contra o bullying e coloca o futebol na mesma linha de raciocínio. Para ele, as crianças precisam ser ensinadas sobre convivência através do futebol e a torcida mista pode ser uma ferramenta para essas ações.

 

Para Marcelo Jorge, Diretor de Operações da Arena do Grêmio, o conceito da torcida mista é um exemplo de civilidade e respeito ao próximo. “É uma demonstração de que é possível que torcedores rivais deixem a rivalidade para trás e venham juntos torcer lado a lado pelos seus times, sem brigas, sem confusão, de forma mais segura e confortável. É uma atração a mais para que o torcedor venha para o estádio”, diz.

“Nós temos torcedores colorados e gremistas em uma mesma família que antes não vinham juntos ao estádio, agora com a torcida mista isso é possível”, comenta. Sobre a proposta de fazer da torcida mista uma ferramenta de ações sociais, Marcelo Jorge diz que a Arena do Grêmio está aberta a tudo o que seja favorável ao torcedor. “O que move o futebol é a torcida. A torcida é a principal atração. Sem a torcida o futebol não seria possível. Toda a proposta que faça com que o torcedor compareça de forma massiva ao estádio com certeza será tratada com carinho aqui na Arena”, afirma Marcelo Jorge.

Identificar e punir os violentos

Segundo Alexandre Limeira, os cinco indivíduos que brigaram no jogo entre Inter e Emelec estão proibidos de entrar nos estádios. “É preciso identificar os baderneiros e retirar dos estádios”, diz Limeira. “Nós tivemos 2 mil colorados e gremistas sentados lado a lado e não tivemos problemas. Aí nós temos um grupo de gremistas que causam problema. Essa minoria precisa ser retirada dos estádios”, destaca. José Segala, diretor da Camisa 12, há 25 anos na torcida organizada do Internacional, diz que hoje existe um trabalho junto aos órgãos fiscalizadores do futebol, como a Brigada Militar e a Promotoria do Torcedor. “Nós temos um cadastro dentro do BOE com o nome dos integrantes da torcida, onde moram, a profissão que exercem. No sul melhorou muito o trabalho com as torcidas organizadas”, conta. “Nós somos adversários dentro de campo e não inimigos”, diz Segala.

No Grêmio, na torcida organizada Velha Escola, o propósito é o mesmo. “Nós temos um trabalho com o Ministério Público e com a Brigada Militar”, conta Marcelo Bittencourt, Líder da Velha Escola. Marcela destaca o trabalho de escolta do BOE no Grenal da torcida mista no Beira Rio. “Foi o melhor trabalho que eu vi em 20 anos”, diz. “Há dois anos e meio nós fazemos um trabalho de conscientização para procurar evitar qualquer tipo de conflito. Isso não faz bem para a imagem do clube”, conta Marcelo. Sobre a torcida mista, Marcelo diz que é contra. Para ele prevalece a tradição de rivalidade. “Não há possibilidade de unir gremistas e colorados. Isso é utopia. Eles querem acabar com o clássico”, opina Marcelo.

 

As penalidades são desde a proibição de entrar nos estádios até utilizar tornozeleira eletrônica. Segundo Seabra, a Promotoria do Torcedor do Ministério Público tem primado pelo trabalho preventivo. A repressão da violência nos estádios é um dos pontos abordados. “Atualmente nós temos cerca de 50 torcedores entre gremistas e colorados que estão proibidos de frequentar os estádios, alguns por conta de condenação judicial, outros por conta de cautelar e outros ainda por transação penal”, afirma Seabra. De acordo com o promotor, há um sistema desenvolvido pela Promotoria em colaboração com o judiciário, no sentido de zelar para que os torcedores punidos não retornem aos estádios no período de suspensão. “A Promotoria elabora uma lista atualizada dos torcedores suspensos, encaminha essa listagem a CBF e a Federação Gaúcha para publicação dos nomes no site. Mandamos também para o clube, no caso de sócio, a carteira é bloqueada para que ele não tenha acesso, assim como pelo CPF o clube não permita que ele adquira ingressos com a sua identidade”, diz.

Além das medidas junto ao clube e às entidades esportivas, os torcedores penalizados precisam prestar contas sobre a determinação da justiça nas delegacias. “O torcedor punido tem de se apresentar na hora do jogo na delegacia da sua cidade. Nós estabelecemos um período, que varia entre meia hora e uma hora, antes de cada partida, para que o torcedor se apresente. Ele tem de permanecer na delegacia durante todo o jogo e até meia hora, uma hora depois de terminada a partida”, explica o promotor Seabra.

 

Em caso de descumprimento, isso é imediatamente comunicado ao juiz. O torcedor pode ter uma medida cautelar concedida pelo juiz ou agravar uma cautelar já determinada. “Nós temos cerca de 15 torcedores que estão portando tornozeleira eletrônica por ter descumprido uma medida judicial anterior e até alguns casos de torcedores que chegaram a ser presos por conta do descumprimento”, diz. Segundo o promotor, com isso está se mostrando que o ambiente de impunidade não está mais vigorando. O judiciário e o Ministério Público estão atentos à fiscalização das infrações cometidas pelos torcedores.

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.