Conexão Grenal

A invisibilidade das mulheres no esporte

Foto: Divulgação/ CBF

Sou fanática. Admito sem vergonha. Eu amo esportes e o jornalismo, minhas maiores paixões. No entanto, tenho sentido muita vergonha dos meus colegas de profissão desde que comecei a estudar um pouco (um pouquinho mesmo, ainda tenho muito a ler) sobre identidade de gênero, sexualidade e feminismos. Infelizmente, apesar das evoluções óbvias que vemos na nossa sociedade, as mulheres continuam escanteadas. É, isso mesmo, deixadas de lado.

Eu sei que tem uma galera aí que já está me achando exagerada e vai fechar a aba, mas é a real. Nós temos mais espaço, mas principalmente na mídia, ainda não somos dignas de virar notícia do cotidiano.

Uma das minhas maiores paixões é o futebol. Eu gosto de assistir e de vez em quando dou até palpite. Ontem assisti a uma partida de futebol feminino. As partidas ainda são escassas na TV brasileira, mas ontem tive sorte! A partida foi transmitida por dois canais: a SporTV e o Canal Brasil. O jogo foi bom, pegado, as gurias realmente sabem o que estão fazendo. Os gols foram bonitos e uma nova artilheira do campeonato brasileiro foi revelada. Milene. Já ouviu falar? Ela joga no Rio Preto, de São Paulo.

No fim, o Rio Preto venceu o Ferroviária, de Araraquara, por 3 a 0. O primeiro time foi campeão brasileiro em 2015. O segundo foi campeão da Copa Libertadores também no ano passado. Jogaço!

Foto: Ferdinando Ramos/ ALLSports/ CBF

Alguém aí sabia dessa partida? Alguém aí acompanha o campeonato brasileiro de futebol feminino? Não. Nem o jornalismo. Meu queridos colegas simplesmente ignoram os esportes femininos. O principal jornal esportivo da TV aberta não reservou nem um segundo para noticiar a partida. Isso que este é o país do futebol…

Com os atletas não é muito diferente. O tenista Djokovic, número um do mundo, fez uma declaração ainda na semana passada dizendo que achava certo a premiação masculina reservar mais dinheiro do que a feminina. Um absurdo. Ele, de fato, não tira o olho da bola e não enxerga mais nada a sua volta. A sorte foi que a Serena Williams respondeu a altura.

Ontem vi um documentário sobre as mulheres nas Olimpíadas. Os jogos da era moderna tiveram início em 1894. O idealizador, Pierre de Frédy, mais conhecido como Barão de Coubertin, acreditava que as mulheres não serviam para o esporte e que era preferível que ficassem nas arquibancadas aplaudindo e abrilhantando o evento.

Ainda bem que tinha gente discordando dele. A tenista britânica Charlotte Cooper foi uma delas. Ela foi a primeira mulher a conquistar uma medalha de ouro nos jogos, no dia 11 de julho de 1900. Ela venceu as finais de simples e duplas mistas nos jogos de Paris.

A nadadora Maria Lenk foi a primeira mulher brasileira a participar dos Jogos Olímpicos, em 1932. No entanto, a nossa primeira medalha só veio em 1996, em Atlanta. Jaqueline Silva e Sandra Pires ganharam a medalha de ouro em uma final inédita entre duplas brasileiras. Exatamente, eu não errei. Mil novecentos e noventa e seis. Eu tinha seis anos e os jogos Olímpicos 102. Nossa primeira medalha de ouro demorou uma eternidade para chegar ao Brasil.

Foto: Divulgação/ CBF

Uma medalha de ouro feminina em uma prova individual só foi conquistada em 2008, quando Maurren Maggi conquistou o primeiro lugar no salto em distância. No entanto, foi só em 2012 que uma conquista mundial veio a ocorrer. A Olimpíada de Londres foi a primeira em que todas as delegações tinham representantes femininas.

A coisa está melhorando, dá pra ver. Como eu disse, estamos ganhando pequenos espaços que são fundamentais e que fazem diferença, mas é devagar. Bem devagar. Espero que um dia eu ainda escreva sobre igualdade de gênero no esporte. E também espero que este dia não demore tanto quanto a nossa primeira medalha de ouro.

Publicado Originalmente no Blog Desencaixe

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